Sunday, September 28, 2008

Morreu Mauricio Kagel

O Público cita Luis Tinoco e Eurico Carrapatoso para nos dar a triste notícia do desaparecimento do compositor argentino Mauricio Kagel, a 18 de Setembro, com 76 anos. 

“Alguns compositores conseguem destacar-se por serem únicos, por terem uma voz que é diferente, singular, e eu [L Tinoco] acho que o Kagel é um deles".

Para Eurico Carrapatoso, a postura "estética radical e por vezes violenta" de Mauricio Kagel permite comparar o compositor ao pintor Francis Bacon.

Duas perspectivas entre a multiplicidade de enquadramentos possíveis para destacar a obra de um dos compositores mais importantes dos últimos 50 anos. " O melhor músico europeu é Argentino", disse John Cage referindo-se a Mauricio Kagel, nascido a 24 de Dezembro de 1931 em Buenos Aires mas residente na Alemanha desde  1954. 

A originalidade de Kagel é reflexo do seu estatuto de outsider. Muito menos conhecido do que os nomes grandes da música do seu tempo - Stockhausen, Boulez, Berio, Ligeti ou Xenakis, Kagel não estudou formalmente composição, nunca frequentou um conservatório, mas antes estudou filosofia e literatura na Universidade de Buenos Aires, tendo sido aluno de Jorge Luis Borges. 

Criador do "teatro instrumental", afirmava que a música não poderia dissociar-se do elemento teatral. Gestos, movimento e cenografia são elementos intrínsecos ao seu discurso musical.

"Todos los elementos del teatro pueden tratarse como si fueran fuentes de sonido de una orquesta, pero lo importante del teatro instrumental es que la acción sucede con los instrumentos en la mano. La acción de producir música se convierte en hecho teatral", disse em 1990 em entrevista ao El País

Recordamos com emoção os 22ºs Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea que em 1998 homenageavam Mauricio Kagel. Em particular, apelamos à memória para voltar a viver uma das sessões de Mare Nostrum, programa incluido no Festival dos 100 Dias da Expo 98, em que o humor radical de Kagel narra a história imaginária dos descobrimentos marítimos europeus contada... no sentido inverso. 

Kagel compôs para orquestras, escreveu peças para voz, piano e música de camara, musicou filmes e montou peças de teatro. Realizou filmes, escreveu peças radiofónicas. A sua imensa obra é intemporal. Estamos muito a tempo de a descobrir.

















Thursday, September 18, 2008

Música Viva 2008

Música Viva, o festival que Miguel Azguime tem mantido estoicamente desde 1992, itinerante no tempo e no espaço em função dos apoios conseguidos (ou da falta dos mesmos) para garantir um programa monumental e absolutamente ímpar na divulgação de ... Música Viva.

A coerência programática de edição em edição, com apresentação das "grandes formações orquestrais aos emblemáticos concertos de música electrónica pela Orquestra de Altifalantes, passando pela música de câmara, instalações, vídeo, pela palavra, teatro musical e espectáculos para crianças, a criação musical portuguesa e internacional afirma aqui a sua plena vitalidade e diversidade."

É o contexto da edição 14 que começa amanhã apresentando "de 19 a 27 de Setembro, um total de 24 acções distintas: 124 obras, das quais 20 peças electrónicas no novo projecto Sound Walk; 88 obras tocadas em concerto; e 6 instalações sonoras no Interactive Lounge.
Destaca-se ainda o fomento da criação musical que a Miso Music Portugal tem conduzido, sendo responsável pela encomenda de 15 das obras apresentadas. Do universo de 82 compositores representados e 53 estreias absolutas, 42 são compositores portugueses que vão estrear 27 obras, prova inequívoca da prolífica actividade criadora existente em Portugal actualmente e à qual o festival dá voz."

A Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Pedro Amaral homenageia Karlheinz Stockhausen no concerto inaugural do festival, na igreja do Mosteiro dos Jerónimos às 22h. Do programa faz parte "Gesang Der Jünglinge" (literalmente Canção dos Adolescentes) uma das obras mais conhecidas de Stockhausen, um trabalho pioneiro de confronto entre a música processada electronicamente e a voz humana.



As 76 páginas do programa completo da edição de 2008 do festival é uma excente sugestão de leitura para o fim-de-semana. Atrevam-se!

Tuesday, September 16, 2008

Morreu Hector Zazou

Um telefonema hoje, ao fim do dia, marcou a jornada: morreu Hector Zazou.

Pode muito bem ter sido com Hector Zazou que aprendemos a ousadia da descoberta das outras músicas. Zazou foi um ponto de partida. Partiu ele próprio, no passado dia 8 de Setembro em Paris, depois de longos meses doente.

Hector Zazou está obrigatoriamente numa bem pensada lista dos melhores discos que nunca ouviu, e figura no palco das memórias dos melhores concertos de sempre neste mundo, que nunca soube que aconteceram.

Zazou global: a sua origem pode explicar a amplitude das sua obra. Nascido na Argélia, filho de pai francês e mãe espanhola.

Das polifonias corsas ao mistério das vozes búlgaras. Bill Laswell, Dead Can Dance, John Cale, David Sylvian, Ryuichi Sakamoto, Harold Budd, Nico, Jane Birkin ou Björk.

Zazou emblemático na série belga Made to Measure, da Crammed Discs: edições com música para ouvir e ver. Geografias e Geologias que nos são dadas a conhecer e a que nunca poderemos aspirar tocar. Viajar em Sahara Blue, ou navegar nas Chansons des mers Froids.

In The House of Mirrors
será o décimo primeiro registo de Zazou para a Crammed, edição póstuma gravada no início do ano com músicos da Índia e do Uzbequistão e que será editado nas próximas semanas.

A música de Hector Zazou foi e será sempre muito maior do que este nosso pequeno mundo.

Wednesday, September 10, 2008

Karlheinz Stockausen, 80 anos

Karlheinz Stockausen teria feito 80 anos no passado dia 22 de Agosto.
Estamos sempre a tempo de fixar as suas ideias claras sobre som, organização dos sons, processamento e síntese sonora. Stockausen em 1972.

Friday, September 05, 2008

Aplausos em França para o arquitecto Carrilho da Graça


João Luis Carrilho da Graça é aplaudido em França em vésperas da inauguração do TAP em Poitiers. Escreveu hoje o Le Monde:

"Tap, tap, tap, tagadap ! TAP pour Théâtre et auditorium de Poitiers. (...) Tagadap, pour marquer le plaisir de découvrir une oeuvre rare, et un exceptionnel architecte : João Luis Carrilho Da Graça, 56 ans, célèbre au Portugal mais surgi sur la scène française à l'occasion du concours poitevin organisé en 2000.

(...)Les espaces de circulation, au dehors comme au dedans, sont pensés avec la même intelligence et le même plaisir du dessin, tous dissemblables et tous cohérents dans l'écriture générale de l'édifice, tous susceptibles enfin de devenir de petits ou grands théâtres, des salles de concert, des boîtes pour rappeurs enfiévrés, au besoin des salons."

Um projecto que importa descobrir com certa urgência. Não só para ajudar a alimentar a alma Lusa, como para perceber como pode funcionar e ganhar relevância internacional um projecto cultural numa cidade universitária, mais pequena e com menos população do que Coimbra.

A obra de Carrilho da Graça precisou de 8 anos de gestação para conseguir ganhar forma. Um teatro para 722 espectadores e um auditório com 1020 lugares. Salas de ensaio, foyers, cafetarias, escritórios, ... Um projecto que custou 56,3 milhões de euros públicos assegurados pelo município, a região, o distrito e o estado francês.

O teatro arranca com um orçamento para 2008 de 6,79 M€ e 62 colaboradores permanentes asseguram o funcionamento. A festa de abertura do TAP é amanhã e o programa inaugural gratuito continuará de 9 a 11 de Setembro.

Mais sobre o projecto arquitectónico, aqui:
João Luís Carrilho da Graça, arquitectos.


É muito grave o pecado da inveja?